Boletim Mensal Março - SOBEP - Sociedade Brasileira de Estomatologia e Patologia Oral
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Boletim Mensal - Março 2003

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Estudos com alho e paládio apontam para inibição de células cancerígenas
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Testes in vitro acabam de confirmar a eficiência do composto químico a base de alho e paládio no combate às células cancerígenas do tipo cervical HeLa. Em busca de medicamentos com atividades antitumorais, um grupo de pesquisadores do Instituto de Química e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara, coordenados pelo químico Antonio Carlos Massabni, estuda complexos que contêm substâncias de origem natural. Para Massabni "uma das vantagens sobre o novo composto é o fato de que, por ser em parte natural, devido à presença do alho, resultará em menos efeitos colaterais como os provocados pela quimioterapia tradicional". Além disso, "ser solúvel em água vai facilitar a aplicação", conclui.

Segundo Massabni, seu grupo vem trabalhando há mais de dez anos com substâncias naturais que complexam metais, isto é, substâncias que se ligam a metais formando outros compostos, alguns dos quais apresentam aplicações na área médica ou farmacêutica. Entre elas, o alho, que também contém substâncias sulfuradas (enxofre), tem tido suas propriedades estudas há muito tempo, sendo que muitas delas são conhecidas não só pelas pessoas que buscam medicamentos naturais, mas também pelos cientistas.

A pesquisa que resultou nesse novo composto, faz parte do trabalho de doutorado de Pedro Paulo Corbi, que tem trabalhado com alguns aminoácidos que são extraídos do alho. Em sua pesquisa, Corbi estuda também a geração de complexos formados entre as substâncias extraídas do alho e de vários metais, dentre eles o paládio, do mesmo grupo da platina, cujos compostos têm sido usados há algum tempo no tratamento de câncer. Um bom exemplo é a cisplatina, composto antitumoral, liberado para uso desde 1978.

Nessa busca, explica Massabni, "obtivemos um composto solúvel em água formado por um aminoácido extraído do alho e paládio. Este composto foi utilizado em testes [in vitro] para verificar sua atividade diante das células tumorais do tipo HeLa, que dão origem ao câncer cervical humano". Após alguns testes, o composto revelou-se muito eficiente contra a proliferação dessas células. Em baixas concentrações, o composto impediu o crescimento das células cancerígenas apresentando baixa toxicidade. "Os resultados mostram que, quanto maior a concentração do composto, maior sua eficácia", conclui. O pesquisador exemplifica que em uma concentração de 170 microgramas por mililitro de água, o crescimento das células tumorais foi completamente inibido e, em uma concentração maior, o composto bloqueou inclusive as células cancerosas bem desenvolvidas.

Os testes in vitro foram realizados pelos pesquisadores Cláudio Miguel da Costa Neto, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unesp de Araraquara, e por sua estudante Andréia Galdin Moreira. Segundo Massabni, testes em animais já foram iniciados e os resultados pareceram promissores.

Massabni, explica que "os testes em pacientes, deverão ocorrer após finalizarmos a fase de testes em animais, devendo demorar em torno de seis meses".


O longo caminho dos testes in vitro até o medicamento
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A corrida pela busca de cura de doenças, como o câncer, muitas vezes leva pacientes e pesquisadores a acreditarem que um resultado inicial positivo nas pesquisas poderá chegar à cura de doenças mais cedo do que a longa trajetória que um composto terá pela frente antes de se tornar comercilamente discponível. Segundo André Moraes, Presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), "na área do desenvolvimento de novos compostos para o combate ao câncer, as drogas mais modernas que temos hoje demoram cerca de 10 a 12 anos de desenvolvimento para alcançarem a indicação e uso clínico corriqueiro". Isto porque o desenvolvimento de um composto terapêutico precisa passar pelas fases pré-clínicas de identificação dos compostos ativos, purificação, produção, testes de inibição de crescimento de tumor in vitro e testes de tolerância e toxicidade in vivo em animais.

Moraes explica que após cumpridas todas estas etapas, é que se procede as chamadas fases clínicas, a saber : Fase I: determinação da dose máxima tolerada (MTD); Fase II: Testes de eficiência nos diversos tipos de tumores; Fase III: estudos comparando o novo composto com os resultados dos demais já existentes para o mesmo fim, para se alcançar, por último, a indicação do composto para uso terapêutico.

Em relação às combinações de ervas e raízes que fazem parte da cultura popular e se difundem, principalmente, por serem alternativas mais naturais para o tratamento de males com maior índice de mortalidade, Moraes acredita que "não podemos esquecer que estes dados, assim chamados "folclóricos", sempre contribuíram para o desenvolvimento farmacológico, e inúmeros são os exemplos dos medicamentos desenvolvidos a partir destes conhecimentos". O trabalho da ciência nesses casos é o de identificar entre as substâncias que compõem estas "fórmulas", qual são as responsáveis pelo resultado terapêutico, purificar, classificar quimicamente, reproduzir, testar e concentrar de forma a atingir os objetivos terapêuticos desejados, como está sendo feito pela equipe da Unesp de Araraquara. Moraes conclui que, mesmo assim, não é aconselhável que se utilize essas "receitas populares" para tratamentos não experimentados com rigor científico, assim garante-se que os usuários tenham acesso seguro aos possíveis benefícios. Este foi o caso da babosa (Aloe vera), que em 1997 virou o grande milagre na cura do câncer com o livro de Frei Romano Zago "O Câncer tem Cura" (Ed. Vozes). Embora a planta esteja sendo testada em humanos, sua eficiência ainda não foi comprovada.

Químico do Canadá desenvolve substituto da insulina

O estudo de compostos metálicos em associação com a biologia e a medicina é uma área de pesquisa promissora da química inorgânica, especialmente para o desenvolvimento de novos medicamentos. Essa é a especialidade do químico Chris Orvig, Ph.D. do Departamento de Química da University of British Columbia, em Vancouver, Canadá. O pesquisador esteve em Araraquara (SP), no último dia 18, proferindo conferência no Instituto de Química da Unesp, sobre o desenvolvimento de uma "nova" insulina com base em complexos de vanádio. Entre as vantagens sobre a insulina existente no mercado (injetável), o novo composto traz o fato de ser ingerida por via oral.

Orvig concluiu os testes em laboratório e em camundongos. Os testes em humanos já estão sendo executados. "Já verificamos, numa primeira fase de testes em humanos, que os complexos de vanádio que estamos estudando não são tóxicos. Até o final deste ano pretendemos concluir a segunda fase dos testes em humanos, comparando as dosagens" disse o pesquisador acrescentando que em uma terceira fase, os testes devem ser feitos em milhares de pessoas em países de todo o mundo, com duração superior a 3 anos.


    Dr. Chris Orvig: complexos de vanádio para substituir a insulina


De acordo com o pesquisador, o tempo de pesquisa e testes de uma nova droga antes dela chegar ao mercado é de cerca de 10 anos, consumindo recursos que variam entre 200 e 500 milhões de dólares, em países como o Canadá e os Estados Unidos. "Por isso os medicamentos são tão caros, os gastos com a pesquisa estão incluídos no preço", explicou.

Chris Orvig realiza pesquisas nessa área há 25 anos, trabalho que já resultou no registro de 16 patentes, incluindo a descoberta desse substituto da insulina. Ele esteve no Brasil pela primeira vez em 1997. Nesta segunda visita ao país, por meio de um programa de intercâmbio acadêmico financiado pela Fapesp, o canadense esteve na Escola de Medicina da USP, nos Institutos de Química da USP e Unesp (Araraquara) e na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O pesquisador elogiou o nível das pesquisas realizadas no estado de São Paulo, e esteve em Araraquara a convite de Antônio Carlos Massabni (IQ/Unesp) e Alzir Azevedo Batista (UFSCar).

Síntese de proteínas pode levar a novos medicamentos
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Depois dos avanços no seqüenciamento de genomas de plantas e animais, vem crescendo no campo das biotecnologias a demanda por estudos ligados ao "proteoma", que pretendem determinar a composição, estrutura e funções de todas as proteínas. A tese de doutorado "Caracterização e seqüenciamento de peptídios e proteínas por espectrometria de massa", por exemplo, defendida no dia 11 de fevereiro por Ricardo Bastos Cunha, na Universidade de Brasília (UnB), contribuiu para estudos de cinco laboratórios do país e pode levar à produção de novos medicamentos.

Em sua pesquisa, Cunha determinou a seqüência completa de um peptídio da anêmona marinha Bunodosoma cargicum, caracterizado como uma toxina que estimula fortemente a contração do músculo cardíaco em mamíferos e que pode futuramente ser usada no tratamento de epilepsia. Dois artigos sobre esse estudo foram publicados no Brazilian Journal of Medical and Biological Research, e outro será publicado em breve no .

Outro peptídio da mesma anêmona teve a sua seqüência quase completamente determinada pela espectrometria de massa, sendo caracterizado como uma toxina do mesmo tipo que a do peptídio que teve o seqüenciamento completo, por eles possuírem seqüências similares. Esta outra toxina possui uma atividade chamada de ansiolítica, que reduz a ansiedade. "A determinação de sua estrutura primária pode servir de subsídio para o desenvolvimento de uma nova droga ansiolítica [anti-stress], alternativamente às que já existem no mercado", diz o pesquisador. "Dado que o stress é hoje uma das principais causas de doenças nas pessoas, uma droga ansiolítica é de extrema utilidade para a saúde pública", acredita.

Segundo o pesquisador, a espectrometria de massa também permitiu caracterizar um peptídio da pele da rã brasileira Leptodactylus pentadactylus, que tem potente atividade inflamatória. Este peptídio apresentou similaridade de seqüência com peptídios antimicrobianos da pele de outras espécies de rã. "Seu estudo pode servir tanto para o desenvolvimento de antídotos aos efeitos da exposição à secreção cutânea da rã quanto para o desenvolvimento de novas drogas ligadas à ação inflamatória", explica.

Cunha caracterizou, ainda, uma proteína extraída do veneno da aranha marrom Loxosceles gacho, comum no sudeste do país. A picada dessa aranha causa uma lesão dermonecrótica, ou seja, provoca a formação de feridas na pele, e pode causar outros efeitos mais graves que levam a pessoa à morte. "A proteína do veneno é a principal responsável pelos casos de loxoscelismo, principalmente no estado de São Paulo", conta. O estudo sobre a caracterização dessa proteína, que será publicado no Journal of Protein Chemistry, poderá contribuir para o desenvolvimento de um anti-soro (ou antídoto) para o veneno da aranha.



Espectrômetro de massa. Foto: Ricardo B. Cunha


O pesquisador destaca a ênfase do seu trabalho na técnica da espectrometria de massa. Ele explica que após um método de ionização, as moléculas que compõem a proteína se dispersam, como uma nuvem de íons carregados eletricamente. Esses íons são acelerados em uma câmara de vácuo, e a medição do seu "tempo de vôo" determina sua massa. "A minha tese não é a primeira que utiliza essa técnica. Mas é a primeira defendida no Brasil que coloca a espectrometria de massa de proteínas no centro do problema", afirma. "É uma técnica que pode trazer grandes avanços para a atividade de pesquisa biomolecular e biotecnológica no país", completa. A espectrometria de massa também é usada em testes de drogas, exames antidoping e controle de qualidade de alimentos.
A tese de Cunha, orientada por Marcelo Valle Sousa, que foi um dos primeiros pesquisadores a utilizar o termo "proteoma" no Brasil, colaborou com pesquisas do Laboratório de Imunopatologia e do Centro de Toxinologia Aplicada, ambos do Instituto Butantan, do Laboratório de Neurofarmacologia, ligado ao Departamento de Ciências Fisiológicas da Universidade Estadual do Ceará, e do Laboratório de Enzimologia e do Laboratório Multidisciplinar de Pesquisa em Doença de Chagas, esses dois últimos da UnB. O Centro Brasileiro de Serviços e Pesquisas em Proteínas, onde foi desenvolvida a pesquisa, também colabora com estudos para a Unifesp, a USP, a Unesp, a UFMG e a UFRJ, além de indústrias farmacêuticas e biotecnológicas.


NOTÍCIAS DA SOCIEDADE

Medalha Pannain 2003

Colegas,
O Sindicato dos Odontologistas de São Paulo anualmente outorga um Diploma e a medalha de Honra ao Mérito chamada "Medalha Dr. Luiz César Pannain" aos profissionais que tenham se destacado em suas especialidades. As Associações de Especialidade convidadas,são as responsáveis pela indicação de nomes, que são levados junto com seus CV à apreciação da Comissão responsável pela outorga. Ano passado pela primeira vez a Estomatologia foi incluída entre as especialidades contempladas e a Diretoria da SOBEP àquela época, após consultas informais indicou o nome do atual Presidente. Neste ano, a Diretoria da SOBEP está sendo solicitada novamente a indicar um nome. Gostaríamos de, ao invés de fazer uma consulta informal como foi feito ano passado pela premência de tempo, consultar o quadro social. Neste sentido solicitamos que quem desejar indicar o nome de algum colega Estomatologista que considere para esta premiação que o encaminhe para a Secretaria da SOBEP.

Atlas de Doenças da Boca da SOBEP

Encontra-se em fase de implementação o Atlas de doença da Boca da SOBEP, para o qual os associados poderão contribuir com seus casos clínicos. Dia 19/03/03 a diretoria da Sobe se reunirá para a discussão final das normas do mesmo, que posteriormente serão divulgadas por este veículo.

Indicador profissional da Sobe

Existe um espaço na Home page da Sobe para o cadastro de profissionais, chamado indicador profissional. Nesta área podemos encontrar profissionais nas mais variadas localizações, desta forma temos meios para entrar em contato com os mesmos, caso seja necessário. Inclua você também suas informações no site da Sobep.


 


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A Sociedade Brasileira de Estomatologia e Patologia Oral (SOBEP) é uma entidade científica sem fins lucrativos,
que congrega cirurgiões-dentistas que se dedicam à prevenção, diagnóstico e tratamento das doenças da boca.