|
MUCOSITE ORAL RADIOINDUZIDA
Patrícia Nogueira Montenegro de ALMEIDA1;
Ernesto ROESLER2; Ana Paula Veras SOBRAL3
1 Cirurgiã-Dentista
graduada pela FOP/UPE
2 Médico Radioterapeuta do Instituto de Radium
e Supervoltagem Ivo Roesler (IRSIR)
3 Professora Adjunta da Disciplina de Patologia Bucal
da FOP/UPE e Doutora em Patologia Bucal pela FOUSP.
A radioterapia é um dos tratamentos de eleição
para pacientes portadores de neoplasias malignas de cabeça
e pescoço, porém verificamos que o aparecimento de
complicações é praticamente inevitável,
podendo comprometer a execução terapêutica.
Uma das complicações bucais iniciais de grande relevância
em decorrência da radioterapia é a mucosite oral, termo
utilizado para descrever a alteração aguda da mucosa
irradiada, caracterizada por lesões ulcerativas em decorrência
de atrofia do epitélio, com infiltrado inflamatório
crônico persistente, coloração avermelhada e
dor. O início da mucosite, geralmente, ocorre a partir da
segunda semana de radioterapia, em torno de 2.000 cGy, podendo também
instalar-se na primeira semana, com dose de radiação
em torno de 1.000 cGy. (GONÇALVES et al., 2001; MAGALHÃES
et al., 2002; LABBATE et al., 2003).
A etiopatogênese da mucosite oral permanece pobremente conhecida.
Fatores relacionados ao tratamento - como tipo de radiação,
volume de tecido irradiado, doses diária e total, esquema
de fracionamento - estão geralmente descritos com relação
aos seus efeitos sobre os tecidos normais. Em relação
ao paciente, fatores como idade, condição clínica
e estado dental têm sido comumente apontados. A saúde
bucal seria um importante fator modificador, já que pacientes
com melhores condições estomatológicas desenvolveriam
mucosite com menor freqüência e duração
do que aqueles com higiene deficiente e períodos menos freqüentes
de reavaliação. O conhecimento da patogenia, aliado
aos fatores de risco, propicia a escolha da intervenção
profilática e de controle da mucosite oral (DIB et al., 2000;
GONÇALVES et al., 2001).
Clinicamente, a mucosite inicia-se como uma hiperemia
e a mucosa pode encontrar-se edemaciada (Fig.1). Em seguida, pode
ocorrer atrofia do tecido, descamação úmida,
formação de eritemas, hiperqueratinização,
ulceração e até necrose da mucosa. Pode-se
observar eritema de intensidade variável, e discreto desconforto
bucal (Fig. 2).
 |
Fig. 1 - Aspecto clínico da mucosite referente ao Grau
1 RTOG e WHO (candidíase associada) |
| |
|
 |
Fig. 2 - Aspecto clínico da mucosite referente ao Grau
2 RTOG e WHO |
Com o acúmulo de dose de radiação
absorvida e de acordo com a resposta individual do paciente, a mucosite
poderá evoluir com o esbranquiçamento da mucosa, formação
de pseudomembranas e lesões ulcerativas. Subseqüentemente,
áreas de ulceração desenvolvem-se com a formação
de uma membrana superficial fibrinopurulenta, amarelada e removível
(Fig. 3 e 4).
 |
Fig. 3 - Aspecto clínico da mucosite referente ao Grau
3 RTOG e WHO |
| |
|
 |
Fig. 4 - Aspecto clínico da mucosite referente ao Grau
4 RTOG e WHO |
As regiões de menor queratinização ou de queratinização
ausente são geralmente as mais afetadas. A severidade da
mucosite pode levar a um quadro de grande desconforto e dor pela
ulceração confluente da mucosa, impondo limitações
funcionais importantes da fala, deglutição e nutrição,
que podem ficar mais acentuados durante a alimentação
e procedimentos de higiene bucal. A mucosite é o principal
fator dose/limitante, porém sua resolução ocorre
lentamente em torno de 21 dias após o término do tratamento
(Fig.5).
 |
Fig.5 - Aspecto clínico de cicatrização
da mucosa jugal |
Além de interferir de forma negativa sobre
a qualidade de vida do paciente e custos do tratamento, a interrupção
da radioterapia, quando necessária, pode determinar a redução
do controle local do tumor e das taxas de sobrevida em pacientes
com câncer de cabeça e pescoço (DIB et al.,
2000; ANTÔNIO et al., 2001; GONÇALVES et al., 2001;
MARTINS DE CASTRO et al., 2002; NEVILLE et al., 2004).
Além da reconhecida importância de
intervenções odontológicas prévias ao
tratamento e da manutenção da higiene bucal, é
dada ênfase às medidas de atuação local
- preventivas e curativas - para a mucosite, uma vez que os efeitos
da radioterapia são sítio-específicos (DIB
et al., 2000; ANTÔNIO et al., 2001; GONÇALVES, 2001;
MAGALHÃES et al., 2002; MARTINS DE CASTRO et al., 2002).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANTÔNIO, A.M.M.P.; MAIA, F.A.S.; DIAS, R.B. Reações
adversas da radioterapia: cuidados pré, trans e pós
operatório. Revista Odonto, 2001, n.19, ano.9, p.
12 - 19.
DIB, L.L. et al. Abordagem multidisciplinar das complicações
orais da radioterapia. Rev APCD 2000; 54:391 - 6.
GONÇALVES, R.C.C. Estudo de fatores de risco, prevenção
e controle da mucosite oral radioinduzida. 2001. 92p. Tese (Doutorado)
- Fundação Antônio Prudente, São Paulo.
LABBATE, R.; LEHN, C.N.; DENARDIN, O.V.P. Efeito da clorexidina
na mucosite induzida por radioterapia em câncer de cabeça
e pescoço. Rev. Bras. Otorrinolaringol., v.69, n.3,
maio/junho.2003.
MAGALHÃES, M.H.C.G.; CANDIDO, A.P.; ARAÚJO, N.S. Seqüelas
bucais do tratamento radioterápico em cabeça e pescoço
- protocolo de prevenção e tratamento. RPG Rev
Pós Grad, v.9, n.1, p.7 -11, jan./mar. 2002.
MARTINS DE CASTRO, R.F. et al. Atenção odontológica
aos pacientes oncológicos antes, durante e depois do tratamento
antineoplásico. Rev. Odontol. UNICID, v.14, n.1, p.63
- 74, jan./abr. 2002.
NEVILLE, A.G. et al. Patologia Oral e Maxilofacial. 2ª
ed. Guanabara Koogan. Cap.8, p. 251 - 55. 2004.
Endereço para correspondência:
Ana Paula Veras Sobral
Disciplina de Patologia Bucal
Faculdade de Odontologia da UPE
Rua Monte Alverne, 107/05 - Hipódromo
Recife - PE
CEP: 52041-610
e-mail: anapaula@fop.upe.br
|